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Trafaria, c. 1907. Espólio JG Covita.

O incêndio de 23 para 24 de Janeiro de 1777 na Trafaria
 
O segundo quartel do século XVIII
 
Em pleno reinado de D. José I deflagrou a Guerra dos Sete Anos (1750) entre a França e a Inglaterra. Sebastião José de Carvalho e Melo, 1º Conde de Oeiras e Marquês de Pombal era o ministro do rei, responsável pela gestão dos negócios públicos e mentor de reformas do aparelho económico nacional. A França exigia o apoio de Portugal (invocando o pacto entre monarquias da Europa, descendentes da família dos Bourbons, contra a Inglaterra). Portugal, aliado da Inglaterra, recusa e é invadido pelas tropas franco-espanholas em 1762, derrotadas, no ano seguinte, sob comando do Conde de Lipe. Neste quadro de insegurança nacional e na iminência de novo confronto entre Portugal e Espanha, Marquês de Pombal, combatendo o reduzido contingente militar, decreta o recrutamento obrigatório de todos os mancebos.
 
Não só a Trafaria, mas também a povoação piscatória da Costa, dada a sua localização afastada da capital e a existência de uma extensa área de matas, representavam locais ermos, fácil refúgio para os foragidos e desertores. Através dos registos orais comprovamos a existência na área piscatória do Concelho de locais como a “ilha do sumiço” ou o “beco do sumiço”, esconderijo de forasteiros (Neves: 2002:248). Nestes locais piscatórios, à pobreza extrema dos seus moradores estava associada uma cultura material muito elementar: as casas, choupanas de madeira e colmo, aglomeravam-se em zonas protegidas dos ventos norte e do mar; à sua volta, os apetrechos para a principal actividade, a pesca. Estes locais eram propensos a incêndios terríveis que, deflagrando numa barraca, depressa destruíam toda a vizinhança.  

Trafaria, c. 1920. Espólio JG Covita.

Sobre o incêndio - as contradições historiográficas

"A Espanha ameaçava-nos. O marquês dispunha de um mesquinho exército de 40 000 homens. O almirante de Castela surgira no Tejo com doze naus alterosas como outrora os galeões de Filipe II (…) Fazia-se o recrutamento acelerado e violento. Os mancebos da indústria, dos ofícios e da lavoura acolhiam-se à Trafaria, ensaiando uma república, labutando na pesca. O marquês de Pombal (…) queria cevar-se, remoçar-se no sangue daquela ralé que, ali, defronte de Lisboa, ousara insultar a sua autoridade, fugindo-lhe (…) Chamou Diogo Inácio de Pina Manique, intendente da polícia, deu-lhe uma ordem lacónica, e pôs à sua disposição 300 soldados e algumas dúzias de archotes (…) Ao romper da aurora de 24 de Janeiro de 1777, a Trafaria estava cercada por um cordão de tropa. Da fileira saíram alguns soldados com archotes acesos. Eram de tambiques e colmaçadas as casas. A um tempo, rompeu o incêndio nas choupanas circunjacentes aos arruamentos interiores onde havia grandes depósitos de víveres em barracas de lona (…) os desgraçados corriam nus por entre as chamas. Alguns levavam sobraçados os seus doentes, os seus velhos e as crianças. Desses morreram bastantes (…)."
Camilo Castelo Branco,
O Perfil de marquês de Pombal, 1981 (1882), pp.256-260.
 
Para os historiadores contemporâneos, a narração deste incêndio que acima pudemos ler deve ser assumida na historiografia moderna portuguesa como inexacta. Contaminada por uma visão romântica, em que o historiador assumia a apologia de acontecimentos e indivíduos específicos, romantizando pontualmente a sua acção, o acontecimento que afecta a povoação piscatória da Trafaria no final do reinado de D. José I é, no seu tratamento historiográfico, pouco influenciada pelos princípios positivistas da época que exigiam o cruzamento de fontes e a menção a referências bibliográficas como suporte para uma confirmação científica dos factos. A inexistência de qualquer relatório ou documento quer no Arquivo Nacional da Torre do Tombo ou no Arquivo Histórico Municipal de Almada, quer também, segundo Ramos (1993:85) na Biblioteca Nacional que comprove a sua existência enquanto resultado de uma investida policial reafirma actualmente a obscuridade histórica deste acontecimento e conduz a uma grande contenção na sua abordagem, mesmo por parte de historiadores que tendo abordado a possível relação entre o Marquês e o sucedido na Trafaria, escusam-se a referencia-lo em artigos mais recentes (Serrão;1995: 277-346).
 
As interpretações sobre o incêndio da Trafaria, provavelmente transmitidas oralmente e legitimadas através da sua inclusão na obra do historiador liberal Luz Soriano na segunda metade do século XIX, são usadas por Camilo, um assumido anti-pombalista, na sua biografia (ficcionada?) do ministro de D. José I (1981:256-260) para sublinhar a barbárie do acontecimento. Estas duas obras são aparentemente a fonte primária para alguns historiadores do primeiro quartel do século XX referenciarem o incêndio, mas sem indicação de fontes. Esta é a interpretação de António Alberto Pereira Ramos (1993:85-87) que dedicou larga pesquisa ao cruzamento de fontes sobre este incêndio, tentando determinar, se realmente ocorreu, e é possível que tal como noutras povoações concelhias, tivesse ocorrido, mas sobretudo se a sua causa foi intencional e se, a sê-lo, o seu mandante teria sido o Marquês de Pombal e o perpetrador, o seu braço direito, Pina Manique. Contra a afirmação de Camilo levantam-se alguns factos históricos: à data do incêndio (Janeiro de 1777), já D. Maria I havia sido indigitada regente do reino no ano anterior devido à doença terminal de D. José que acabará por falecer em Fevereiro desse ano; o marquês conta quase com 80 anos e tem consciência de que, quando o rei morrer, a nobreza, tentará vingar o longo período de perseguições de que foi alvo. Não parece lógica uma decisão de tão grande visibilidade nesse contexto: ao dar ordem para incendiar uma povoação inteira, ainda mais, um local fronteiro a Lisboa, iria agravar as acusações contra si após morte do rei.  
 
Apesar de todas estas contradições, nas décadas seguintes, mercê do processo público de julgamento do marquês de Pombal, do narrado na obra de Camilo e na apropriação para ficção deste acontecimento, com o jornal A Realeza a partir do n.º 34 (19 de Abril de 1883) a publicar em folhetim um romance cuja acção narra o incêndio de 1777, o imaginário popular cristalizou na história da localidade, a relação entre a catástrofe e a imagem obscura do marquês, sendo até hoje remetida para a localidade da Trafaria a “última façanha” do longo ministério de marquês de Pombal.
 

Para saber mais:

- Branco, Camilo Castelo, 1981 (1882), O Perfil do Marquês de Pombal. Porto: Porto Editora.

- Mattoso, José (dir.), 1993, História de Portugal: Vol. 4- O Antigo Regime. Lisboa: Círculo dos Leitores.

- Neves, Mário Silva, 2002, Tu, Costa Minha! O passado e o presente. S/L: Edição de autor.

- Ramos, António Alberto de Carvalho Pereira, 1993, O marquês de Pombal e o Incêndio da Trafaria: verdade ou ficção. In: Actas das 1ªs Jornadas de Estudos sobre o Concelho de Almada. Almada: Câmara Municipal. pp. 85 – 87.

- Serrão, Joaquim Veríssimo, 1995, Marquês de Pombal: o homem e o estadista. In Medina, João (dir.), História de Portugal: Portugal Absolutista, Vol. VII. Lisboa. Clube internacional do Livro.

- Soares, Manuel Lourenço, 1986, Trafaria e sua toponímia: subsídios para a sua história. Almada: Câmara Municipal.

- Vaz, Artur, 2005, Cantinhos e Memórias do Concelho de Almada. Almada: Junta de Freguesia da Cova da Piedade.

-
www.bvtrafaria.com/orgaos_sociais/historial

- http://www.jftrafaria.com.pt/historia.htm




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